Estrelinha mágica

A Fabiana

 

Ei! Devo começar com “gute-gute”,

Ou, talvez, (pode ser?) “gu-gu-dá-dá”,

Um verso que pareça a ti tão rude

Mas que no fim será um verso exemplar?

 

Não sei... Tenho receio de que vás

Abrir a boca e, como um leão ruge,

Dizer-me longamente um longo “Ah”,

E assim deixar que o medo a mim me mude.

 

Mas... se tu me permites, por que não

Ceder a essa voz, tão doce e bela,

E dar-te um batimento ao coração?

 

Então, gu-gu recorda quando a estrela

Azul desceu do céu na tua mão

E fez de ti minha linda Cinderela...

Ações conjuntas ou O Mundo Das Aberrações Foneticamente Doentes

 

Mas como tem porém contudo a voz,

Que singra todavia como o vento,

Sabendo que entretanto o movimento

Não vai cair porém na mesma foz,

 

A força de também ter regimento,

Sem nem tão-pouco ver o albatroz,

Voar no céu? — porque correr veloz

Correndo faz que venha o esquecimento.

 

Quer seja pelo cogumelo preto

Quer seja pelo cão de Baudelaire,

A cruz veio de Cristo pro meu peito.

 

Portanto, deixarei de ser mulher;

E à pomba, que é da paz, enfim, sujeito

Serei, quando ela aqui me ver vier.

O mundo encantado de um cogumelo demente

 

“Acinte por acinte aqui vens tu

Duelar como ninguém co’ a velha pena!”

Não sabes que o pobre urubu

Pousou, já tão cansado desta cena?

 

Me lembro com certeza do tal fato:

Aquele cão sarnento que chegava

Com a língua já encostando no sapato!

Olhei-te enquanto ele aproximava.

 

E vi nos olhos teus uma bravura

Que nem a sã coruja conhecia;

 Me era proteção de tua altura.

 

E aquele cogumelo que sorria

Co’ a pena relatava a então futura

Cena vil que jamais existiria.

O Mundo Encantado Da Loucura De Um Cão Doente

A Fabiana, para provocá-la

 

Cantamos levemente a nossa pena...

Cuidados, pode ser, de nosso Amor.

Mas chega-me o Autor com nova cena,

Aquela donde a dor vem como flor...

 

Te lembras? quando o cão cheio de dor

Passou pelo jardim onde a serena

Coruja exuberava a negra cor

E viu o cogumelo cuma pena?

 

Daí ficou calmíssimo e sentou

Do lado de nós dois e relatou

A sua desventura como gente?...

 

“Eu tive outrora um desses cogumelos.

Mas mo tosaram junto com meus pêlos.

Não posso mais na vida ser contente....

A Sandoval Leite Neto

Por julgar-se melhor poeta que eu, perdendo tudo o quanto tinha nas algibeiras em um desafio

 

Então pego Gregório e a pena e enceto

Um verso, e um segundo, e dou-lhes rima.

Assim posso um terceiro pôr em cima

Dum quarto, que me forma este quarteto.

 

Começo um quinto, assim, e vou prum sexto.

Aqui não canto nada que se imprima.

Mas este vem depois do que está em cima,

E ajuda-me a fechar outro quarteto.

 

E ora me chega ao fim a inspiração...

E ponho mais dois versos pra compor

O que me obriga a mim a obrigação.

 

Se agora canto aqui nenhuma cor,

Não penses que não tenho informação,

Somente Deus me fez este favor.

O Genro tímido

por Rubem Braga

 

A noiva lhe explicou, com muito jeito, que ele tinha certas maneiras de falar que sua mãe (a dela) estranhava um pouco. Que ele compreendesse e não ficasse zangado: muito religiosa, muito retraída, a “velha” estranhava certas expressões que não têm nada de mais, mas que ela não estava acostumada a ouvir.

 

O rapaz encabulou: teria, sem querer, dito algum palavrão? A moça disse que nem pensasse nisso, eram apenas maneiras de dizer as coisas. Por exemplo, ele dissera, a certa altura do jantar: “Não sou muito amante do abacate não.” Ela, a moça, achava isso natural, mas a mãe, coitada, ficava meio chocada com essa palavra amante. Ele poderia dizer, por exemplo, amigo.

 

No jantar seguinte, na casa da futura sogra, respondendo a uma pergunta desta, sobre se gostava de doce de abóbora, disse: “Não, senhora, eu não sou muito amigo de amantes não.”

 

Um dia a futura sogra perguntou que fita estava passando no Metro. Lembrou-se do título: “Numa ilha com você”. E respondeu:

— Numa ilha... com a senhora.

Sr. Cisne...

A minha querida Fabiana

 

se cantas com tua voz doce e amena,

Não há mais nada que se obrigue ou mande...

Assim também Amor à gente ordena,

No peito, aos poucos, chora, ri, se expande...



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